Depoimentos


Antenor Barbosa dos Santos (Barbosinha)

Antonio Celso Alves Pereira

Arnoldo Wald


Carlos Roberto Siqueira Castro


Célio Borja


Flávio Bauer Novelli


Flávio Galdino


Gustavo Tepedino


Heloisa Helena Gomes Barboza


João Magalhães


José Carlos Barbosa Moreira


Luís Roberto Barroso


Luíz Fernando Couto


Luiz Fux


Mauricio Mota


Oscar Dias Corrêa


Otávio Leite


Paulo Cezar Pinheiro Carneiro


Ricardo Lira

Gustavo Tepedino

Sou Gustavo José Mendes Tepedino. Tenho três filhas: Elisa, Ana Teresa e Laura. Nasci no Rio de Janeiro, no dia 15 de março de 1958. Meu pai, já falecido, se chamava Fábio Tepedino, era dentista. Descendeu de imigrantes italianos, do sul da Itália. A família Tepedino vem de Padula, na Campagna, tendo o meu avô Geraldo se casado com Anna Schettino, cuja família é de Maratea, na Basilicata; minha mãe, Lucy Mendes Tepedino, é professora de piano. Eu não tinha parentes em atividade na área jurídica. A formação dos meus tios é de médicos e dentistas. Mas o meu avô materno, pai da minha mãe, que morreu quando mamãe tinha 17 anos - e que, portanto, nunca conheci - era juiz de Direito em Minas Gerais, de onde vieram meus pais. São todos mineiros... O nome dele era Heitor Mendes do Nascimento, e faleceu muito cedo. Era magistrado e um exemplo de correção, pelo que eu ouvia falar através de pessoas que o conheceram. Era uma época em que vovó não podia receber presentes de ninguém porque ele não deixava; porque isto de alguma forma poderia ter influência nos julgamentos dele. Era uma ética muito rigorosa.

Eu sou fruto da classe média da zona sul do Rio de Janeiro. Fui criado no Arpoador e lá tive muita liberdade: praia, futebol, grupo de amigos. Éramos criados num Rio de Janeiro muito livre. Estudei no Colégio Santo Inácio por 12 anos, e sempre me interessei muito por Literatura, História, humanidades em geral. Tive grande dúvida vocacional entre Odontologia, vendo no meu pai o modelo, e o Direito. E por isso acabei fazendo vestibular para Odontologia, passando para a UFRJ. Naquela época o vestibular para as Universidades Públicas era unificado e, por isso, não pude fazer vestibular para Direito nas públicas. Fiz a Faculdade de Direito na PUC, à noite. Cursei Odontologia na Federal por um ano, até trancar matrícula e desistir, optando efetivamente pelo Direito. E o meu sonho era ser professor de Direito...

Todos diziam que eu deveria fazer Direito, nem sei bem o porquê. Achavam que eu era o próprio candidato a advogado. Talvez pela preocupação com a justiça, pela argumentação enfática. Insisti com a Odontologia, mas Direito foi sempre uma opção natural. Na primeira prova de Introdução à Ciência do Direito, a Professora Regina Soares, que leciona na PUC ainda hoje, leu a minha resposta para a turma e aquilo me incentivou muito. Fiquei entusiasmado que a professora, na primeira prova, tenha lido a minha prova para os demais colegas, e tenha me dado dez. A questão versava sobre Direito e justiça, bem no início da faculdade. E na PUC tínhamos as matérias eletivas oferecidas por outros Departamentos. No meu caso, escolhi matérias de História e de outros campos do conhecimento que me interessavam.

Ingressei na PUC em janeiro de 1977, na época da redemocratização do Brasil, em que se lutava pela Anistia geral e irrestrita, pela Constituinte e pela volta dos exilados. Na PUC, participei ativamente da liderança do movimento estudantil, de afirmação da democracia ‘sem adjetivos’, como se dizia naquela época. Fui presidente do Centro Acadêmico Eduardo Lustosa, dos alunos do Direito, e depois presidente do DCE. Chegamos a organizar assembléia nos pilotis com mais de três mil pessoas, e realizamos greve de estudantes com helicópteros do DOPS sobrevoando o campus. Mas nunca, nunca, nunca os militares invadiram a PUC, eles respeitavam muito a Universidade. E a PUC era o cenário de recepção dos exilados no Rio de Janeiro. Fomos buscar no Galeão Miguel Arraes, Leonel Brizola, Apolônio de Carvalho, enfim, todos que chegavam iam para a PUC e às vezes discursavam. Foi um cenário muito rico na formação política, e na conscientização da necessidade de se ter uma Constituinte. Passamos a cultivar a democracia, o Estado de Direito e o pluralismo como valores profundamente arraigados em nossos espíritos. Isso está na alma da minha geração. Na PUC éramos de esquerda e lutávamos por ideais de uma sociedade com melhor distribuição de renda. De certa maneira, os direitos sociais insculpidos na Constituição refletem as bandeiras dessa geração.

Era um bom aluno mas, definitivamente, a política era mais importante naquele momento. Tinha um excelente CR, que não era difícil obter, elegia algumas matérias, gostava de Direito Civil, Processo Civil, Constitucional e Direito do Trabalho, mas líamos muito Ciência Política e discutíamos Marx, Lênin, Trotsky, Teologia da Libertação; discutíamos Gramsci e outros autores que foram importantes para a formação daquela geração. Só posteriormente me dedicaria com afinco ao estudo do Direito. Trabalhava durante o dia em um escritório de advocacia, lia o que podia, e tínhamos ainda as discussões políticas no Baixo Leblon - não existia ainda o baixo Gávea. Nunca fui bom de esporte, então não perdia tempo e, talvez por isso, tinha mais tempo para ler, conversar, ir ao cinema e acompanhar a vida cultural da cidade.

O professor que me marcou, sem dúvida, foi Ebert Chamoun, catedrático de Direito Civil também da UEG, hoje aposentado. Era um professor muito rigoroso, perfeccionista ao extremo, preciso nos conceitos, o que me ajudou bastante. Conservador, era o oposto de mim, idealista e de esquerda. Fascinava-me sua capacidade de sistematizar e analisar minuciosamente os dispositivos do Código Civil, em busca de uma dogmática que acreditava ser tecnicamente impecável. Era igualmente admirável a associação que fazia entre o direito romano e o direito civil, bem como sua precisão de linguagem. Grande admiração tenho também pelo prof. Mauro Fichtner Pereira, de Processo Civil, hoje um grande advogado e amigo. Marcou-me muitíssimo por sua competência, segurança, inteligência. Naquela época era magistrado, e atuava com altivez e coragem, denunciando escândalos nas varas especializadas em acidentes de trabalho. Mauro Fichtner também foi uma grande referência dos tempos da faculdade, cujo exemplo me serviu de estímulo a seguir, no futuro, a vida acadêmica.

Trabalhava no escritório de advocacia do Dr. Fernando Cícero da Franca Veloso, que era um grande advogado, já falecido. Foi meu primeiro emprego e ali fiquei durante toda a faculdade. Na minha formatura, ele me convidou para ser sócio do escritório. Minha carteira da OAB ainda era provisória e eu me tornei sócio, com nome no papel timbrado: Veloso, Veloso e Tepedino Advogados. Isso em 1981, eu estava saindo da faculdade e fui orador da turma. Meu discurso, em agosto de 1981, voltava-se para a necessidade de reconstrução da democracia, no momento em que passava a existir, digamos assim, certo espaço de liberdade. Era um discurso cheio de esperança - em 1981 anunciavam-se as eleições de 1982 -, em que a sociedade democrática finalmente asseguraria uma distribuição justa de renda e melhores condições de vida para a população. Acho que minha geração, nesse particular, fracassou. Não conseguimos ainda estabelecer balizas éticas para a vida pública e as condições mínimas de dignidade para o povo brasileiro.

Decidi, então, em 1982, apesar de empolgado no escritório de advocacia e com as eleições políticas, que deveria morar fora e me preparar mais seriamente para a vida acadêmica. E morei, então, de 1982 a 1986, na Itália, período em que fiz meu doutorado e me afastei da política. Não fosse a viagem e dificilmente eu conseguiria resistir à tentação da vida pública, tendo eu me formado quando era presidente do DCE da PUC, momento em que tive diversos convites para ser candidato a deputado. Se não ficasse esses 4 anos recluso em Camerino, na região central da Itália, uma cidadezinha pacata com uma extraordinária biblioteca, não teria conseguido dar substância à minha formação pessoal e cultural. Fui bolsista da CAPES. Estudava, estudava, estudava.

Na Itália conheci o prof. Pietro Perlingieri, que é um líder doutrinário, o chefe da escola de pensamento que criou - Caposcuola , e de quem me considero discípulo. A Universidade de Camerino, onde estudei, situa-se entre Roma e Florença, do lado do Adriático, perto de Assis, na região das Marcas - delle Marche. Região pequena, pouco conhecida. O tema da tese de doutorado foi o confronto entre a autonomia privada e o direito à moradia. Vivia-se o Estado Assistencialista, e eu procurei analisar os limites da legitimidade da intervenção estatal na atividade econômica privada - com a lei rígida para a locação de imóveis, os financiamentos subsidiados e assim por diante -, em função dos valores sociais que informavam o direito constitucional à moradia. Estudei muito as restrições à autonomia privada para garantir o acesso à casa própria. O direito de propriedade visto não somente como garantia, mas como acesso a bens essenciais, tema absolutamente fora das discussões brasileiras daquela época. Examinei a doutrina e a experiência italiana, mas a pesquisa foi utilíssima para toda a minha futura produção científica.

Voltei da Itália em 1986, não conhecia ninguém na faculdade de Direito da UERJ, onde nunca havia pisado, e fui substituir a professora Heloísa Helena Barboza, que se licenciara por conta do nascimento de sua filha.

A ida para a UERJ foi a realização de um sonho. Júlio Penha, que era o secretário da Faculdade, me confiou três turmas de Graduação, em períodos distintos. Eram muitas turmas para um docente sem experiência alguma. Eu passava o fim de semana estudando. Sexta-feira eu saía da UERJ depois do último tempo, pois dava aula até às 22 horas. E já ia para casa começar a preparar as aulas da semana seguinte, para dar conta de preparar tantos pontos. Minha primeira turma se formou em dezembro de 1986, e me chamaram para ser homenageado. Fiquei muito feliz e emocionado.

No ano seguinte, assumi minhas próprias turmas, que acabaram de entrar na Faculdade. Era o início de 1987. Abriu-se então o concurso público, com apenas um mês de antecedência, para professor auxiliar de Direito Civil. Achei que não tinha condições de disputá-lo, porque haveria seguramente muitos candidatos e o programa era enorme. De fato, houve 18 inscritos. Procurei o prof. Chamoun e comuniquei que não faria o concurso, que aquele não era ainda o meu momento. Eu não conseguiria preparar todos os pontos do programa. Respondeu-me ele, definitivo: "Se o senhor não disputar o concurso tenha a honestidade de pedir sua exoneração amanhã mesmo e abandonar a turma. Afinal, não poderá se manter em sala de aula se não se sente em condições de disputar o concurso para professor oferecido pela Faculdade onde leciona". Fiquei desconcertado e decidi me arriscar.

Fui beneficiado pela honestidade e seriedade com que os concursos se realizam tradicionalmente na Faculdade de Direito da UERJ. A banca foi composta pelos professores Ricardo César Pereira Lira, Simão Isaac Benjó e Jacob Dolinger. Havia inúmeros ex-alunos da casa disputando o concurso comigo e houve igualdade de tratamento, mesmo sendo eu um desconhecido, vindo de outra Universidade. O concurso era composto por uma prova escrita, uma aula didática e o exame de títulos.

A prova escrita teve como ponto ‘Contrato de fiança’. Os 10 aprovados foram convocados para a prova de aula. O ponto sorteado foi ‘Empreitada’. Os candidatos foram convidados a ficar numa sala, da qual eram chamados, de hora em hora, a partir das 8 horas da manhã em diante, para a aula. A Banca foi obrigada a ouvir 10 aulas sobre o mesmo tema, em pleno domingo, por dez horas consecutivas. Dizia-se que o bedel da Faculdade de Direito, Duarte, já falecido, tornou-se um especialista em ‘empreitada’.

O ponto foi sorteado com 24 horas de antecedência. Procurei imediatamente o prof. Chamoun, preocupado em preparar minha aula com livros estrangeiros, mais sofisticados. O próprio prof. Simão Isaac Benjó, me lembro bem, recomendara que os candidatos procurassem ministrar aulas mais profundas. O Prof. Chamoun discordou peremptoriamente, e me dissuadiu a procurar qualquer livro de doutrina estrangeira naquele momento. Não faça isso, disse-me ele: "O Direito é elementar e o mal é que as pessoas desconhecem os elementos do Direito. Numa aula de 50 minutos, o senhor tem que mostrar o domínio dos conceitos e facilidade didática". Deu-me, então, um breve roteiro, escrito de próprio punho, que tenho anotado ainda hoje, com sua letra. Passei a noite repetindo a minha aula elementar. A aula deveria ter no mínimo 50 minutos e no máximo 60 minutos. Se fosse 1 minuto a menos ou um minuto a mais o candidato seria reprovado.

Ao final do meu roteiro, talvez porque estivesse nervoso, percebi que faltavam 7 minutos antes dos 50 minutos. Temi pela reprovação. E tive que improvisar para completar o tempo mínimo regulamentar. Suscitei, então, meio desesperado, um tema muito interessante, de improviso. Depois de haver discorrido sobre o contrato de ‘empreitada’ propus à banca, naqueles minutos finais, o problema da qualificação do contrato de empreitada, a partir da noção de causa construída por Salvatore Pugliatti. Trata-se de questão muito técnica e que não era muito propalada entre nós. Alguns contratos se parecem embora tenham funções diferenciadas, acarretando distintas disciplinas jurídicas. Fui obrigado a improvisar, fazendo questão de esclarecer, contudo, para os membros da banca examinadora, que havia deliberadamente deixado para o final o aspecto que considerava mais importante da matéria. E felizmente ficou bonito. Para minha alegria, deram-me 10 na prova oral e eu passei em primeiro lugar no concurso. Ingressei assim na UERJ para realizar o sonho da minha vida, que era lecionar em uma Universidade Pública e ser realmente um Professor.

Tudo o que queria era ser professor, e queria muito poder construir uma escola de pensamento, como tinha visto na Itália. Construir uma escola no sentido de formação de uma corrente de pensamento, de pessoas que partilham daquilo que a gente hoje chama de mesmos marcos teóricos e que desenvolvem estudos e grupos de pesquisa numa mesma direção. Tenho a alegria de dizer que construímos, a muitas mãos, uma escola na Faculdade de Direito da UERJ.

Nossa escola de Direito Civil se espraiou para todo o Rio de Janeiro e hoje tem interlocutores no Brasil e no exterior, com os mesmos matizes dogmáticos, teóricos e metodológicos. Há efetivamente coerência entre as diversas gerações de estudiosos e temos na Revista Trimestral de Direito Civil, publicada pela Editora Padma/Renovar, um importante fórum de debate.

Em seguida, em 1988, fiz o concurso de livre-docência na Faculdade. Minha tese era muito técnica e específica, intitulada Usufruto legal do Cônjuge Viúvo. Em 1991 me tornei professor titular, em novo concurso aberto na Faculdade. Vejo o professor titular como um líder científico e assim procuro exercer meu papel no Departamento de Direito Civil. Ajudei, nessa qualidade, a promover a reestruturação por que passou a Faculdade nos anos 90, com a criação do Programa de Pós-Graduação, ao lado dos professores Antonio Celso Alves Pereira, Ricardo Lira, Maria Celina Bodin de Moraes e de um grupo de outros abnegados colegas.

Fiz então meu concurso para procurador da República. E fui do Ministério Público Federal até o ano passado, de 1989 a 2004. Pude conciliar o cargo de Procurador da República com o de professor universitário, sendo incompatível com a função de Procurador a advocacia. Isso foi ótimo porque pude me dedicar com afinco à Universidade. Na Procuradoria da República fui responsável, durante muitos anos, pela tutela dos interesses difusos e coletivos. Depois tive a honra de ser Procurador Regional dos Direitos do Cidadão. Havia muito trabalho, coincidindo com a afirmação do Ministério Público como desenhado pela Constituição de 1988. Defendíamos a sociedade com idealismo e afinco, os consumidores, os índios, os vulneráveis. Ajudamos no processo de demarcação de duas terras indígenas no Estado do Rio de Janeiro, em Bracuí e Paraty Mirim. As relações de consumo, o meio ambiente, o acervo cultural, como o Solar da Imperatriz, o Parque Lage, os casarios da rua do Lavradio, os direitos humanos atingidos pela operação dos militares no Rio de Janeiro nos anos 90, conhecida como "Operação Rio". Atuei com muita determinação na defesa dos Direitos Humanos, o que se associava à minha atividade acadêmica.

Na Faculdade, em 1992, com a vitória de Antonio Celso para Diretor, tomou corpo o projeto de excelência acadêmica que almejávamos, com a ampliação dos concursos públicos, a criação e consolidação do programa da Pós-Graduação e a exigência de que todo professor, mesmo sendo diretor, se manteria também na graduação, efetivamente em sala de aula. Tive a honra de ser o Vice-Diretor da Faculdade de 1992 a 1996, quando me tornei Diretor.

Logo depois da implantação da primeira área de concentração do Programa de Pós-Graduação, Direito da Cidade, tratamos de criar a área de Direito Civil. Juntamente com a profª. Maria Celina Bodin de Moraes, com o prof. Ricardo Lira, a profª. Heloisa Helena e sob a liderança do Antonio Celso, na direção da Faculdade, ousamos criar, concomitantemente, o mestrado e o doutorado em direito civil. Contamos com alguns professores visitantes, que tinham conhecimento e experiência em pós-graduação, e foram fundamentais para a implantação do Programa. A Profª. Maria Celina Bodin de Moraes concebeu em grande parte o projeto relativo ao direito civil e a Profª. Rosângela Lunardelli nos aproximou do mundo da CAPES e das agências de fomento. Minha lembrança daquele período é de muito trabalho, especialmente porque não tínhamos uma cultura da pós-graduação em nossa Faculdade.

Hoje, felizmente, somos reconhecidos como um centro de excelência, recebemos alunos de todo o Brasil, do Pará, da Bahia, de Brasília, de Minas Gerais, do Espírito Santo, do Paraná, do Rio Grande do Sul. Essa também é a vocação da universidade pública, no sentido de formar quadros docentes.

Paralelamente à implantação da Pós, as minhas duas primeiras turmas de graduação, que acompanhei por todos os dez períodos da Faculdade, se formaram em 1991. Eram duas turmas, nos turnos da manhã e da noite, formadas por alunos especiais, que lideraram a campanha discente para o Antonio Celso e para mim, candidatos a Diretor e Vice-Diretor da Faculdade. Os alunos se mobilizaram com faixas e cartazes. Dessa geração de alunos surgiram coincidentemente vários docentes, de altíssimo nível técnico e didático. Alguns deles fizeram depois concurso e estão em nossos quadros de professores: Patrícia Glioche, de Processo Penal, Daniel Sarmento, de Direito Constitucional, Alexandre Aragão, de Direito Administrativo, Vânia Aieta, também Constitucionalista e o nosso atual Vice-diretor da Faculdade, Carlos Edison do Rêgo Monteiro Filho, professor de Direito Civil. É uma geração vocacionada, que representa um divisor de águas para a nova fase da Faculdade, voltada para a investigação científica.

Nossa casa tem se renovado de forma sistemática e contínua, e mantêm-se muito aberta aos intercâmbios com outras instituições. Como diretor, sendo Antonio Celso o nosso Reitor, demos muita ênfase ao programa de convênios com instituições internacionais, celebrando acordos de cooperação científica com as Universidades de Lisboa, Coimbra, Paris II, Poitiers, Camerino, São Francisco e assim por diante. Ressalto, na tradição dos civilistas da nossa casa, a figura destacada de Arnoldo Wald, grande catedrático que tive a alegria de substituir, quando se aposentou. Com uma obra admirável em todos os campos do Direito Civil e empresarial, divulga bastante a Faculdade no Brasil e na Europa, especialmente na França, onde sua atuação é muito respeitada.

Sou o chefe do departamento de Direito Civil, tendo sido Vice-Diretor de 1992 a 1996, e Diretor da Faculdade de 1996 a 2000. A campanha para Diretor, fundamental para que consolidássemos a etapa de revitalização acadêmica da Faculdade, adaptando-a para a realidade atual, foi bastante difícil. Quase perdemos a eleição. O candidato concorrente era o prof. João Marcelo de Araújo, já falecido e pelo qual tenho apreço e saudade. Por diversas circunstâncias contigentes, dentre as quais o excesso de trabalho exigido para a implantação e reconhecimento do nosso Programa de Pós junto a CAPES, a chapa adversária saiu na frente, angariando a simpatia da maioria absoluta dos alunos e dos funcionários. Tivemos de reverter a primeira impressão em uma campanha duríssima, e acabamos vencendo nos três segmentos: alunos, professores e funcionários.

Tive naquele momento o apoio irrestrito de todos os Ex-Diretores da Faculdade, Antonio Celso, então candidato a Reitor, Ricardo Lira, Flávio Bauer Novelli, Oscar Dias Correa. No momento da apuração, já eleito Reitor, Antonio Celso e Márcia, sua mulher, subiram ao Salão Nobre da Faculdade e ficaram a noite toda acompanhando a contagem dos votos para Diretor da Faculdade. Ricardo Lira e Magali, sua mulher, também ficaram lá em vigília, a noite inteira, mostrando a importância da faculdade de Direito para esses amigos tão queridos.

A mais importante realização do meu período como Diretor foi a consolidação da Faculdade como centro de excelência, tanto no que concerne à Pós-graduação, como no Curso de Graduação, com uma importante reforma curricular então realizada. Abrimos diversos concursos para Professor Titular, primeira grande reforma no sistema de biblioteca, investindo na compra de livros e revistas nacionais e estrangeiras. Ao lado disso, empreendemos verdadeira cruzada por todo o Brasil para reformular o Comitê de Avaliação da CAPES, que era hostil a todos os novos programas e muito endogâmico. Elegemos então o professor Ricardo Lira como presidente de Comitê de Direito. Isto foi um marco na pós-graduação no Brasil e eu, de algum modo, liderei o processo, falando com os coordenadores de Programas de todo o Brasil. E o Ricardo Lira foi muito importante para dar seriedade, transparência, e democracia ao Comitê da CAPES na área de Direito, sendo posteriormente sucedido pelo Prof. Luiz Edson Fachin, da UFPR, que fez um trabalho excepcional na CAPES.

Hoje a UERJ é a minha casa, é a minha vida. Adoro a Faculdade de Direito, meus alunos de graduação, que considero os mais bem preparados do Brasil na área de Direito. São cultos, superam um vestibular disputadíssimo. Temos um ambiente científico riquíssimo. Creio que o ambiente acadêmico seja o fator mais importante e determinante na formação universitária.

Vivemos hoje momentos difíceis para o ensino público. Temos problemas de financiamento da universidade e problemas relativos ao sistema de gestão e de deliberação. As lutas sindicais, no âmbito universitário, por vezes perdem a dimensão do espaço público e de sua responsabilidade para com as finalidades políticas da educação. Temos que ter em mente sempre a obrigação de servir à sociedade, produzindo um saber crítico e de qualidade.

Sou Professor Titular de Direito Civil, juntamente com outros três professores titulares em exercício, as Profas. Heloísa Helena Barbosa, Maria Celina Bodin de Moraes e Maria Tereza Moreira Lima. Contamos ainda com a presença do Professor Emérito Ricardo César Pereira Lira, que, tendo se aposentado, continua a prestar relevantíssimos serviços como professor visitante de nossa Faculdade.

Tenho publicado bastante no Brasil e no exterior, com o apoio imprescindível de muitos colaboradores, alguns ainda da graduação, bolsistas de iniciação científica da Faculdade. Meu "Temas de Direito Civil" está na terceira edição e acabo de lançar o "Temas de Direito Civil - tomo II", pela Editora Renovar. Estamos lançando também o segundo volume do "Código Civil Interpretado à luz da Constituição da República", obra coordenada por mim em conjunto com as Profas. Heloísa Helena Barboza e a Maria Celina Bodin de Moraes, contando com a participação de 44 autores. Tenho diversos outros projetos editoriais simultaneamente em andamento, sendo Diretor da Revista Trimestral de Direito Civil.

Escrevo de noite, fim de semana, não tenho um método rígido para escrever. Tenho uma casa em Petrópolis, onde escrevo e estudo com mais tranqüilidade. Em algumas oportunidades, quando fui convidado como professor visitante de Universidades no Exterior - Universidades de Poitiers, França, de São Francisco, Califórnia (EUA), e Camerino, Itália - aproveito para me dedicar a projetos que demandam pesquisa de direito comparado, valendo-me das boas bibliotecas que ali encontro.

Tenho uma atividade bastante intensa de orientação, de doutorandos, mestrandos e graduandos. Temos que nos esforçar para manter a natureza humanista da formação dos nossos estudantes. Não podemos sucumbir ao individualismo dos dias atuais, que faz cada qual pensar apenas no cabedal técnico suficiente para sua carreira profissional, seus concursos, sua advocacia. O mais importante, ao contrário, é preparar nossos jovens bacharéis, e os mestrandos e doutorandos, para a vida, preocupados com valores humanistas e éticos. Preocupados com a maior efetividade da Justiça, para se ter uma sociedade mais justa. Se isso não for feito acabaremos nos limitando à técnica do direito positivo, o que - convenhamos - é muito pouco, e fugiremos do foco central do Direito, que há de ser, sempre, a pessoa humana.

Afinal, atrás de cada problema jurídico existe um drama humano, alguém que está buscando uma solução para seus problemas pessoais. Então quanto mais o profissional for atento e apto a interpretar os dramas humanos, mais saberá resolver os problemas surgidos no cotidiano. Para tanto, é preciso ler, estudar, ver, ouvir, perceber o mundo e viver com intensidade, para se preparar para a vida, substrato dos reais problemas jurídicos.

| alto da página |