Depoimentos


Antenor Barbosa dos Santos (Barbosinha)

Antonio Celso Alves Pereira

Arnoldo Wald


Carlos Roberto Siqueira Castro


Célio Borja


Flávio Bauer Novelli


Flávio Galdino


Gustavo Tepedino


Heloisa Helena Gomes Barboza


João Magalhães


José Carlos Barbosa Moreira


Luís Roberto Barroso


Luíz Fernando Couto


Luiz Fux


Mauricio Mota


Oscar Dias Corrêa


Otávio Leite


Paulo Cezar Pinheiro Carneiro


Ricardo Lira

Oscar Dias Corrêa

Meu nome completo é Oscar Dias Corrêa, nasci no dia 1º de fevereiro de 1921, em Itaúna, Minas Gerais. Filho de Manoel Dias Corrêa e Maria da Fonseca Corrêa. Meu pai é de Moreira de Cônegos, Portugal. Tenho até um livro sobre ele, que considero a melhor obra que escrevi: “Manoel Dias Corrêa, um brasileiro nascido em Portugal.”

Meu pai veio para o Brasil aos 11 anos, aqui para o Rio de Janeiro. Não sei como acabou indo para Itaúna, onde encontrou minha mãe, se casaram, constituíram família. Aí nascemos eu e mais quatro irmãos. Todos de boa formação cultural: José, advogado, muito bom advogado. Paulo, psicanalista, excelente psicanalista. Minha irmã Hilda, que morreu muito jovem, mas que estudava pintura e música. E Mário, médico, professor emérito da Universidade de Minas Gerais.

Comecei no Grupo Escolar Augusto Gonçalves em Itaúna, escola pública, excelente, excelentes professoras - eram mulheres - a minha professora Eslira Nogueira teve grande influência na minha formação cultural.

No mais, minha formação se deu com meu pai. Ele tinha uma grande vocação política e eu, aos 9 anos de idade, em 1929, já lia discursos proferidos na Câmara dos Deputados, pelo Deputado João Neves da Fontoura, por exemplo: eu ficava em pé, em frente ao balcão, e meu pai ficava do lado de fora com  três ou quatros amigos; eu lia os discursos como se fosse o próprio João Neves: “Sr. Presidente, peço a  palavra. Tem a palavra o nobre Deputado João Neves da Fontoura...” Aí eu começava o discurso. Entre esses amigos, havia o Dr. Joaquim Augusto Pereira Lima, excelente advogado, que me corrigia. Quando eu errava o tom ou a prosódia, ele me corrigia: “por favor Oscar,  não é assim, é assim...” Então, aos 9 anos, eu comecei a fazer discursos dos outros...

Aos 11 anos, publiquei um texto no jornal Estado de Minas Gerais, “A galinha dos ovos de ouro”, aquele velho conto. E o que eu escrevi foi escolhido, e daí em diante... Com 18 anos ganhei coragem e comecei a falar e publicar em todo lugar, e acabei na Academia de Letras. Coitada da Academia!

Para ser um bom orador, primeiro, acho que se deve ter o dom. Eloqüência é uma espécie de dom. É claro que se pode adquirir, mas é muito mais fácil quando a gente já nasce com inclinação. Tenho a impressão que nasci com inclinação, modéstia à parte, e me prevaleci disso a vida toda. A minha vida toda foi fazer discursos. E se eu contar os discursos que fiz, talvez seja mais tempo do que os meus dias de casado, apenas 57 anos...

Há algumas coisas que me marcaram muito:  participei do concurso nacional de oratória, em 1943, representando Minas Gerais, e ganhei. Nesse mesmo ano participei do concurso nacional de monografias da Ordem dos Advogados, e ganhei também. Então, foi muito engraçado, porque na hora em que  recebi o primeiro prêmio - do concurso de monografias - bateram muitas palmas; mas quando eu ia receber o de oratória, o auditório veio abaixo: “é o mesmo, é o mesmo...” Foi uma gritaria... E eram advogados... Mas ficaram entusiasmados em ver o mesmo menino...

Em 1943, tinha 22 anos. Foram os dois episódios que me marcaram muito: recebi três mil cruzeiros de prêmio pelo concurso de monografias e dois mil pelo de oratória. E com esses cinco mil abri meu escritório de advocacia e comprei uma máquina portátil Hermes Baby, que eu usava no escritório.

Ah, a opção pelo Direito veio do berço. O fato de eu, menino ainda, entrar nesse esquema de leitura de discursos, e o meu pai me estimulando... Porque meu pai foi o homem mais inteligente que conheci. Ele não tinha formação cultural, mas qualquer coisa que se dissesse, ele apreendia, com uma lucidez, uma rapidez inacreditáveis. Era um homem sem cultura, mas de formação intelectual das melhores, porque qualquer coisa que você dissesse, imediatamente ele processava.

A opção pelo Direito foi natural. Eu não podia ser médico: não tinha vocação para sondar as insondáveis falhas da natureza humana... Então o Direito, esse apego à liberdade, à noção de lei, de justo... Além do mais, o vulto que mais me impressionou na vida foi Rui Barbosa, e como Rui era o meu - vamos dizer, como hoje - ícone, como o Rui era meu símbolo, e era advogado, e sobretudo era a eloqüência, me decidi.. A definição de eloqüência do Rui é uma das coisas mais bonitas que há. Veja-se: é “ o privilégio divino da palavra, a evidência alada, a inspiração resplandecente, a verdade em erupção, em cachoeira, ou em oceano, com as transparências da onda, as surpresas do vento, os reflexos do céu e os descortinos do horizonte”. É a definição de eloqüência com a própria eloqüência.

Eu tinha que ser advogado, não podia ser outra coisa. Eu me lembro de tudo, do meu primeiro dia, na Faculdade: encontrei, por exemplo, o Carlos Castelo Branco (o Castelinho); Rondon Pacheco, depois Governador de Minas; Armando Rolemberg, depois Ministro do Tribunal Superior de Justiça, só para lembrar  três. Lembro-me de todos eles, como o Sebastião de Oliveira Sales, nosso orador da turma.

Entrei na Universidade no Pré-Jurídico, em 1937. É o Clássico de hoje. O Pré-Jurídico, aliás, era muito melhor: você já entrava no curso preparatório da Faculdade de Direito, com as disciplinas de Economia, Sociologia, História do Direito, Filosofia do Direito e, com isso, desde logo no estudo de matérias que eram base, fundamento do estudo do Direito. Hoje não: você vai ter matérias que não vai encontrar nunca na sua vida.

 Por coincidência, esse ano de 1937 foi, precisamente, o ano do golpe do Getúlio. Nós, na Escola, nos posicionamos todos, 100%, contra o Getúlio. Aconteceu então um episódio muito interessante: o professor de História de Civilização era um grande orador, muito bom expositor, Ildefonso Mascarenhas da Silva. Era irmão do Geraldo Mascarenhas,   secretário particular de Getúlio. E ele, uns dias antes do golpe, dando aula, disse: ‘’Se algum dia nesse país atentarem contra a liberdade, eu serei o primeiro a me revoltar.’’ Resultado: quando, uns dias depois, houve o golpe, pensamos: o irmão dele está lá, ele não vai falar nada. Fui, então, incumbido de interpelá-lo, se ele não dissesse nada contra o golpe. Mas ele chegou na sala.: “...Consumou-se contra a liberdade nesse país o maior atentado...” E espinafrou o Getúlio... Saiu carregado.

Meus professores foram todos muito bons, grandes professores. O professor de Filosofia, Carlos Campos; o professor de Penal, Francisco Brant; de Comercial, Lincoln Prates; de Direito Civil, Villas-Boas, que foi Ministro Supremo, por aí você vê.

Nunca fui homem de especialidade. Penso que a especialidade atrapalha a vida do estudioso  porque ele acaba sabendo cada vez mais sobre cada vez menos, e esse conceito é velho. Gosto de Direito, como Direito, todo o Direito. Não só Direito Civil, ou Comercial, ou Penal, Tributário, Constitucional ou Internacional... Gosto de direito. A minha vida toda é essa.

Qualquer revista que chegue, imediatamente corro os olhos; não digo que leio todos os artigos, mas conforme o tema qualquer que seja, eu estudo. Tenho dado parecer sobre Direito Tributário, Direito Penal,  Direito Civil, Comercial, Constitucional, quer dizer, Direito estudo e tenho boa vocação para entender, qualquer que seja a área.

Estudei de 1937, no Pré-Jurídico,  até 1939, e de 1939 a 1943 fiz o curso na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, hoje Universidade Federal  de Minas Gerais...

Fiquei em Minas advogando, depois veio a campanha política em 1945, com o brigadeiro Eduardo Gomes, entrei na campanha, acabei candidato a Deputado Estadual e contra a expectativa geral, inclusive a minha, me elegi. Eleito Deputado Estadual em 1946,  participei em 1947 da Constituinte de Minas Gerais.

Depois, em 1951, me candidatei, de novo, a Deputado Estadual, e em 1955 a Federal, em 1959 a Federal, 1963 Federal,  Deputado até 1967, quando, extintos os Partidos Políticos, pelo AI 2, não mais me candidatei, abandonando a vida pública.

Sempre advogando e, mais ainda,  aqui no Rio, no caso da UERJ, eu era Deputado Federal quando  Aliomar Baleeiro, teve que se ausentar,  e me pediu que o substituisse  no doutorado da UERJ, no Catete, em 1957.

Fui para a Faculdade de Direito por que eu já era professor catedrático de Economia, da Federal de Minas Gerais desde 1951, e em 1957 ganhei o concurso para catedrático da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil, hoje Federal do Rio de Janeiro.

Minha história política já está nas “Memórias” que a Assembléia Legislativa de Minas Gerais publicou... 

Os alunos da UERJ sempre foram os melhores, pelo menos do Rio de Janeiro. Posso dizê-lo com autoridade porque fui professor da Federal, professor do Bennet, professor em Brasília, de modo que conheço muito bem o alunado. Aliás, quero dizer que se há alguém que se pode vangloriar de ter tido sempre o melhor relacionamento com os alunos, sou eu. Na minha aula, se fazia ‘’blague’’ eles participavam; se parava,  ficavam sérios: obedeciam ao comando do professor.

Há um episódio muito engraçado: eu era diretor da UERJ, já no Maracanã,   diretor com o Caio Tácito, Reitor, e muito amigo de João Lyra Filho e de Oscar Tenório, dois grandes reitores e professores. Estávamos no prédio novo e eu exercia o comando, vamos dizer, firme, sem autoritarismo, mas com autoridade. Por exemplo: para preservar o prédio o Caio determinou: ‘’Não se preguem cartazes nas paredes dos prédios’’, apenas nos painéis para isso localizados. Os alunos pregavam. Na hora do recreio eu saia com o bedel e os ia arrancando, e entregando ao bedel. Dizia: “quem quiser reagir, reaja comigo, como diretor da Faculdade”. Quando foi no fim do ano o orador da turma fez o discurso de formatura. E fazia alusões ao autoritarismo do diretor. Naquele tempo o aluno mandava para o diretor o discurso, para tomar conhecimento.

Ele mandou o discurso, eu li, devolvi-o, e ele disse: “O Sr. não vai rever o discurso?” Respondi: “Não senhor. Aqui é uma Faculdade de Direito, e não há censura. O Sr. diga o que quiser, mas pode ouvir o que não quer”. Resultado: preparei um discurso de uma página. Na hora da formatura ele foi para a tribuna leu o discurso e foi aclamado pelos colegas, em ovação espetacular. Estava presente, eu me lembro, como patrono, o Raimundo Faoro, que foi Presidente da Ordem dos Advogados. Ele ficou muito constrangido. Disse-lhe: “Faoro, não se preocupe.” Quando o aluno acabou, falou Faoro e eu fui encerrar a sessão. Dei uma bordoada  correta ao discurso.. Sabe o que aconteceu? Bateram palmas e me carregaram, do mesmo jeito... Quer dizer, eles queriam o direito de falar, mas estavam dispostos a ouvir. Foi um clima de entendimento. Deve ter sido por volta do final da década de 1970, por que em 1982 eu fui para o Supremo e parei de dar aula.

Mas eles vinham, reclamavam de mim... Um dia estava no gabinete quando chegou uma turma que queria falar comigo: “Perfeitamente, mande entrar”. Aí um começou a falar e disse assim: ‘’que esse troço’’ Imediatamente ponderei: “Jovem, a palavra “troço” não é para ser dita por um estudante de Direito, em frente ao seu diretor. Corrija a linguagem”. Ele estava sentado e havia também alunas, e obtemperei: “Levante-se.  Como eu estou recebendo os senhores de pé, o Sr. se levante, quando nada em homenagem às senhoras e senhoritas presentes”.

Agora, quando me pediam providências, eu dizia: “Vocês têm razão, vou mandar fazer”. Ou “Não tem razão, não faço”. Pronto, acabou. Resultado: o clima era um clima de liberdade com ordem e autoridade. Enquanto em outras faculdades havia greve, bagunça e até quebra-quebra, na UERJ não havia coisa nenhuma. Um jornal uma vez escreveu: “Na UERJ não se faz greve, por quê?”

Quando os alunos tinham qualquer reclamação dirigiam-se ao diretor e sendo a Faculdade de Direito, é a que  se adianta. Se tinham razão eu acolhia; se não tinham recusava por isso, isso e aquilo. Eles se convenciam e iam embora. Mas tudo o que pediam com razão eram tendidos. Por exemplo: reclamavam de um professor. Se eu achasse que o professor não tinha razão, chamava-o   e dizia: “ o Sr. está fazendo isso, isso, isso. E está errado por isso, isso, isso. Corrija-se”. Ponto.

Nessa época havia, eu não digo embate, havia discordâncias. Divergências. Mas todas elas eram tratadas com respeito e inteligência. Chegavam a mim e diziam:  “Professor, nós queríamos reclamar disso, disso, disso”. Eu dizia: “Vocês têm razão nisso, não tem nisso, tem nisso, vou tomar tais, tais providências”.

Tenho a impressão de que as maiores reclamações eram contra professores que não cumpriam o dever. Costumo dizer  que é mais fácil dirigir alunos do que professores.  Adotei um sistema ( minha mulher dizia que foi a maior demonstração de importância que eu tive na vida): toda vez que um professor faltava à aula, o bedel me informava. E eu saía da diretoria, ia para a sala de aula e dizia: “o professor não pôde vir. Os senhores estão estudando o quê? Qual matéria? Então vamos dar a aula..." Dava aula de Direito Civil, Direito Comercial, Tributário, Penal, com o Código na mão!

Como professor de Economia, .preparava as aulas, levava notas, e admitia   perguntas a qualquer momento. O aluno fazia a pergunta, e eu  procurava responder.  Era um clima de entendimento, respeito, cordialidade, e vou dizer uma coisa: em todas as faculdades em que lecionei, nos piores momentos – eu era diretor da Faculdade de Economia da Federal quando os alunos se rebelaram no “Teatro da Arena”, que era dentro da Faculdade de Economia –  e eu mantive a ordem.

O Ministro da Educação chegou, e eu lhe disse: “O Sr. Ministro me desculpe, estou aqui no meu gabinete, o Sr. veio porque quis,  não me comunicou. O Sr. vai enfrentar os alunos .Se precisar de mim, me chame”. Aí ele começou a discutir com os alunos, e eles começaram a vaiá-lo. Então mandou me chamar. Cheguei e disse apenas o seguinte: “Ministro, o Sr. quer dar por encerrada a sua participação?” Ele disse: “Quero”. “Está encerrada a participação do Ministro. Os senhores se mantenham onde se encontram. Quem fala é o Diretor da Faculdade”. Pronto. Porque eles sabiam  que eu não faria nenhuma violência, mas não admitiria nenhuma desordem. E se eles se reuniam numa sala, por exemplo, para debater temas políticos, contra a determinação do Diretor, eu ia para lá e me sentava ao lado. “Se os Srs. querem debater, eu também quero debater. Já que os Srs. querem diálogo, o diálogo não é de um só, é de dois, então eu também quero diálogo”. “Então nós vamos embora, vamos embora”. Exatamente o que eu queria...

Na UERJ, no meu tempo não me lembro de nenhuma invasão... Nada disso. De repressão me lembro na Federal. Na Federal vi duas ou mais repressões, até episódios muito engraçados, mas são da Federal... 

Dar aula é muito bom, corrigir prova é a pior coisa do mundo. Porque acontece, ás vezes, que alguns alunos tomam nota das questões na aula, erradamente, e aquilo passa de um para o outro. Então a gente começa a corrigir a prova e vê uma resposta absolutamente insustentável. A gente pensa assim: “será que ensinei isso?” Aí vem a segunda prova, igual, a terceira, igual. Aí eu costumava fazer o seguinte: estava no meio do maço das provas,  passava para o fim, e aí encontrava uma prova boa, que me animava. Corrigir prova é a maior angústia de professor,  quando ele percebe que, às vezes, o que ele ensinou não foi apreendido ou foi mal apreendido, então começa a se culpar: “não são eles que não entenderam, eu é que falei mal” Isso angustia... Mas o nível das provas, em geral, era bom. Com algumas piores eu fazia o seguinte: dava a nota nas provas a lápis, levava para a sala de aula e as comentava, sem citar nomes, obviamente: “esta prova é muito boa por isso, isso, isso. Esta está ruim por isso, isso, isso." Às vezes, havia exame oral. E na hora do oral  eu perguntava: “Fulano, o Sr. fez a prova?”  “Fiz”. Eu estava com a prova na frente. “Boa ou má?” “Não estava boa não professor, não estava muito bem não”. “Quanto vale sua prova?” Ah, professor vale cinco, seis”. Nunca me aconteceu que a nota que eu tinha dado a lápis era inferior à do aluno, nunca! 

Dei aula, por exemplo, na Escola da Magistratura até o ano retrasado. O número de mulheres é muito maior que o de homens e elas são muito interessadas. Muito, vamos dizer assim, marcadamente interessadas em aprender, estudar e vencer na vida. E a mulher é muito mais determinada que o homem.

Dei aula de Economia em  Faculdade de Direito, é um tipo de aula. Na Faculdade de Economia, a aula é diferente, o enfoque é outro. Na Faculdade de Direito dou um enfoque de economia em face das leis, o relacionamento Economia - Direito.

Mas quando fui diretor, não dava aula, aí não era possível, não havia como. Os maiores desafios nessa minha gestão de diretor do curso de Direito da atual UERJ eram na instalação da Faculdade de Direito no novo “campus”. Vim logo depois do Flávio Novelli, grande figura, de quem fui vice-diretor.  E o grande problema era que a Faculdade de Direito estava começando a se instalar no Maracanã. Tinha de assegurar ordem em tudo. Havia muitos problemas que não tinham sido detectados. À medida que o tempo foi passando eles foram surgindo e exigindo solução.

Para mim, a melhor coisa que fiz na Faculdade foi criar o serviço de assistência judiciária, o escritório. Os alunos vieram a mim, alguns alunos, inclusive a Drª. Rosângela, que era aluna àquela época. Então, criei o Escritório, naquele tempo uma salinha pequenininha. Tenho a impressão de que era no corredor da Faculdade: eu saía do Gabinete, andava naquela passarela, à esquerda, e tinha uma salinha. Pois bem, isso hoje é um trabalho imenso, atende a uma população carente incomensurável...

Eles tinham razão, ao querer aprender a advogar. Não havia nada melhor para isso do que o escritório de advocacia, dentro da Faculdade, onde havia inclusive a possibilidade de contatar qualquer professor que eles quisessem. Qualquer problema que surgisse no escritório, era só eles saírem dali , irem à sala de aula, pegar o professor e submeter-lhe o problema. Era uma grande solução, proposta pelos alunos, não  invenção minha . Eles é que propuseram. Resultado: no primeiro ano começou bem, depois explodiu.

Fui diretor da Faculdade e também era do Conselho Universitário. O Conselho era  harmônico, equilibrado, o reitor era o Caio Tácito, figura admirável, das melhores deste País, um dos melhores juristas nacionais.

A Faculdade sempre teve muito bons diretores, como o Flávio Bauer Novelli, o Nilson Santana, de modo que todos muito firmes, a linha era praticamente a mesma que eu adotei. Em toda a Universidade imperava um clima de entendimento, respeitoso entre alunos e professores. O aluno sabia que podia contar com o diretor se tivesse razão e não contar se não tivesse.

Nunca fui convidado para paraninfo, por um motivo muito simples: primeiro, era professor do primeiro ano. Economia é no primeiro ano. Depois de mim vinham os grandes professores no segundo, no terceiro, no quarto e no quinto, estes, em geral, os mais requisitados. E a minha disciplina, Economia, não era disciplina fundamental no ensino do Direito. Pelo menos os alunos a consideravam assim, além é claro, das deficiências do professor...

Hoje a Economia é obrigatória em tudo, mas naquele tempo a Economia, vamos dizer, era a Economia científica no seu início . Eu  começava com Adam Smith, Marx, até chegar a Keynes, que era o último autor mais importante. John Maynard Keynes. Apresentava a Economia com a influência no Direito, mas não tinha a importância de hoje, em que o fato econômico e o fato político andam de tal maneira mesclados que um deles atua intensamente sobre o outro. Tanto a Economia sobre a política, como o político sobre o econômico.

Havia muitos alunos que eram marxistas. Como sempre fui anti-marxista, adotava uma tese definitiva: no primeiro dia de aula de Economia eu dizia o seguinte: “sou anti-marxista, anti-socialista, anti-comunista. Só não sou anarquista porque não posso. Meu desejo era ser anarquista, mas como a sociedade não dispõe ainda de condições para ser anarquista, sou neoliberal, neo-capitalista. Então, vou dar para os senhores as primeiras noções e quem não concordar reclame ou cale-se para sempre”, costumava brincar. Às vezes levava um texto do Marx para a aula – mandei há pouco para a biblioteca da Universidade da minha cidade – da coleção das obras completas do Marx , que eram 40 volumes! Em francês. Eu lia, em francês, e brincava: “como o meu francês é muito ruim, vou traduzir para o português”.  Traduzia e dizia: “isso quer dizer isso, isso, isso, eu sou contra por isso, isso, isso. Alguém discorda?  Discorde ou cale-se para sempre”. Resultado: calei para sempre os socialistas da turma...

Eu era um professor, não digo duro, mas exigente. Aluno não quer professor mole, não quer professor que não exige. Esse professor bonzinho, não interessa ao aluno. Aluno não gosta de professor bonzinho; quer um professor que o obrigue a estudar e aprender, é sua autodefesa.

Eu usava terno e gravata, usei toda a vida. E uma vez aconteceu um episódio muito interessante: eu passei na sala de aula de um professor, a porta estava aberta e ele estava sentado sobre a mesa, com a camisa aberta, e um daqueles medalhões espalhafatosos. Entrei, pedi licença ao professor e aos alunos: “Com licença, tenho um recado para o professor. E baixinho, quase ao seu ouvido: “desça da mesa, feche a camisa e comporte-se.” E fui embora. O professor chega lá, com a camisa aberta, peito de fora, com um bruto de um medalhão, sentado em cima da mesa, só falta puxar um charuto! Resultado: perde a autoridade.

Posso dizer o seguinte: na Faculdade de Direito da UERJ não tinha bagunça, era organizada, era constante nos deveres. A UERJ era a melhor faculdade de Direito do meu tempo no Rio de Janeiro.

O auditório com o meu nome... eu costumo dizer que é a maior homenagem que recebi. Lembro-me da solenidade:  o Diretor Antônio Celso me convidou para ir à Faculdade, eu não sabia o que era, e cheguei lá com minha mulher... De repente  vi aquela sala com o meu retrato na parede. Enorme. Inapagável. Foi um susto, uma emoção muito grande: fui pego completamente desprevenido.

Acompanho ainda a Faculdade de Direito, mas de longe. De longe pois não tenho podido manter contato com os novos professores; e o último diretor com quem convivi foi o Celso Mello. Costumava ir a algumas solenidades. A  partir daí  perdi contato.

Participei de muitas bancas examinadoras. Era um examinador rigoroso. A minha crítica às teses sempre foi impiedosa. Costumava dizer: “ vou bater no candidato e ele reaja o melhor que puder, sem se esquecer de que eu dou a nota”. Sempre fazia uma crítica muito pesada, apesar de respeitosa, mas dura, no sentido de argüir ponto por ponto. E exigia respostas...  Em compensação, quando o examinando reagia bem eu ficava satisfeito, podia dar boa nota.

Na Federal ocorreu um episódio quase dramático. Fui examinar um candidato a professor de Economia, que apresentara uma tese sobre  o fundamento do valor. Era uma tese muito bem impressa. Comecei a lê-la, li a primeira frase, e pensei: “eu já li isso”. Li a segunda: “eu já li isso”, li a terceira, “eu já li isso”. Então, parei, fui à estante ver qual era o livro que eu lia mais sobre a matéria. Peguei o livro e comecei a ler.

E encontrei a primeira frase, vamos dizer, na página 36. A segunda na página 32, e fui assim com boa parte da tese. Cheguei na defesa da tese, e comecei o exame : “Sr. Professor,  vou ler o texto em francês da sua tese e V. S.. acompanhe em português, por que a sua tese é cópia do livro tal, em pontos diversos que vou citar. A primeira frase é da página tal, a segunda frase é da página tal”... e fui por aí afora... E ele: “Mas eu conheço o livro...” “Ora, V.S. tanto conhece o livro que o copiou”. Foi um negócio constrangedor já que o pai dele, que era professor catedrático, uma grande figura, estava presente. Mas o que eu podia fazer? Como examinador era impiedoso.

Na UERJ examinei  em muitos concursos e bancas. Por exemplo, examinei o Flavio Novelli, para catedrático de Direito Financeiro. Foi muito engraçado... O Novelli é uma grande figura, e a tese era muito boa, mas a minha obrigação era provocá-lo. Pois a filha dele ficou com raiva de mim, embora lhe  tivesse dado dez em todas as provas... Ela disse: “Eu não perdôo o senhor. O senhor deu dez mas bateu muito no meu pai...”

Lembro também da minha própria argüição em Minas Gerais, em 1951, para professor catedrático de Economia na Faculdade de Direito da UMG. Eu estava concorrendo com três candidatos ilustres, muito mais titulados do que eu. A mais interessante das argüições foi a do professor Cardoso de Melo Neto, que fora governador de São Paulo e era não só importante, como respeitado.

Ele disse informalmente: “Oh, menino, vamos fazer um negócio?” Respondi: “Professor, com o Sr. eu faço qualquer negócio”. Ele: “Eu faço perguntas e você responde”. Porque o usual é o examinador falar durante meia hora e o candidato responder em meia hora. “Professor, com o Sr. faço qualquer negócio, o Sr. pode perguntar tudo que o Sr. quiser.” Resultado: ele fez a primeira pergunta, eu respondi. Fez  a segunda pergunta e eu dei a resposta imediatamente. A terceira era mais difícil, então citei vários autores em favor da minha tese. Ele atalhou: “Você quando não pode chutar em gol passa a bola, hein?”. “Pois é, professor, porque eu quero é o gol . E se não for eu, que seja um companheiro meu.” Resultado: foi um exame descontraído: ele tinha me dado nota cinco em títulos -  eu tinha poucos títulos em vista dos outros candidatos - mas me deu dez nas outras provas. Ganhei o concurso.

Acho que é muito importante a memória de uma Faculdade para que as outras possam se mirar nela e ver como deve ser feito. É muito bom que a experiência dos outros seja contada e que a gente possa tirar uma construção nova dessa experiência.

Um conselho para o aluno que está entrando: estude, estude, leia, leia, incansavelmente. Leia tudo. O advogado tem que saber todas as coisas humanas, as artes e as ciências (“omnium rerum atque artium scientiam”). Advogado tem que saber de tudo. Quando um advogado é chamado pela firma para uma consultoria qualquer, a primeira coisa que faz o diretor ou gerente é conversar com ele.

E nessa conversa o menos que aparece é matéria jurídica: “O que o Sr. está achando da situação atual, o quê o Sr. está vendo?” Então, se o advogado não está informado do que está se passando, e das coisas que ocorrem, ele é mal visto: este homem está desatualizado da realidade, como é que pode estar atualizado no Direito? Costumo dizer que sou capaz de conversar com qualquer pessoa, sobre qualquer assunto, do torneio de tênis à luta de box, do jogo de futebol à filosofia do Direito. Qualquer assunto. O que o aluno tem que fazer é ler tudo: tem que ler jornal, tem que ler Direito, um pouco de Filosofia, com um pouco de Economia. E no mais, tudo que cair sob os olhos, podendo, leia, porque é lendo que se aprende.

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