Depoimentos


Antenor Barbosa dos Santos (Barbosinha)

Antonio Celso Alves Pereira

Arnoldo Wald


Carlos Roberto Siqueira Castro


Célio Borja


Flávio Bauer Novelli


Flávio Galdino


Gustavo Tepedino


Heloisa Helena Gomes Barboza


João Magalhães


José Carlos Barbosa Moreira


Luís Roberto Barroso


Luíz Fernando Couto


Luiz Fux


Mauricio Mota


Oscar Dias Corrêa


Otávio Leite


Paulo Cezar Pinheiro Carneiro


Ricardo Lira

João Magalhães

Sou João Lima de Magalhães, nascido no dia 10 de outubro de 1919, filho de Ernani Augusto de Magalhães e Adélia Lima de Magalhães. Nasci em casa, em Niterói, numa rua na beira da praia, éramos cinco irmãos. Meu pai era de Campos, todo metódico: saía para trabalhar com a pasta dele, a bolsa dele, a garrafa térmica... a bóia, levava a pensãozinha dele...

Eu estudei no centro do Rio, contabilidade. Mas como eu trabalhava da manhã até a noite, não tinha tempo, fui reprovado no ultimo ano, quando fui convocado para o Tiro de Guerra.

E fiquei na Vila Militar. Nesse tempo eu trabalhava na Estrada de Ferro Leopoldina também, na caixa. Fazia a escrita toda: quantos mantimentos para colocar no vagão, para entregar... E me aposentei com 31 anos de casa na Leopoldina. E aí fiquei integral aqui na UERJ. Estou até hoje, 51 anos trabalhando.

Naquela época, quem me chamou para trabalhar no Catete foi justamente o meu cunhado, que era da Central do Brasil e tesoureiro aqui na faculdade de Direito. Ele perguntou se eu queria trabalhar. Eu disse: "ah, eu trabalho". Aí fui lá trabalhar, tomar conta de um curso de vestibular, de 1952 a 1953.

Naquela época existiam os grandes professores... Uns já morreram, outros vieram para cá, mas já estão aposentados. O sistema lá era outro, era muito sério o negócio. Os alunos para fazerem a prova recebiam a carteirinha, e no verso tinha um número da carteira para sentar e fazer a prova. Tinha fiscalização. E havia também outra coisa que eu acho que deveriam fazer agora, que é a congregação que havia lá dos professores. Para dar instrução, para mostrar como fazer, para seguir o ritmo. Era no salão nobre, os professores ficavam sentados, como se fossem clientes, ouvintes, e os professores titulares ensinando.

As provas saíam sem o canhoto. Iam para as mãos do professores sem o canhoto. A gente numerava duas vezes. Quando vinham para as mãos dos professores, os professores nem sabiam quem eram os alunos. E a gente tinha que colocar tudo direitinho. Era um trabalho duro.

Em 53, eu fui contratado. Passei para Oficial Administrativo. Eu ficava só no vestibular trabalhando. Depois comecei a ajudar no arquivo. Comecei no arquivo ajudando, ajudando... Quando chegou 1954, eu passei para o quadro. Dia 1º de março de 1954.

E quando virou UERJ, a.universidade aqui não tinha faculdade de Direito para fazer concorrência... e chamou a gente pra cá. A única coisa que eu achei, na época, é que deveria ser seriado. Que era o melhor tipo de prova. Porque seriado você faz uma prova em agosto e outra em novembro. Tem muito tempo para estudar a matéria. Hoje não, botaram o sistema de créditos. O sistema de créditos não dá nem tempo, entendeu? Tudo atrasado, e os professores entregam as provas já quase fechando... Tumultua muito.

Eu pegava no Catete às 7 horas da manhã. Ia de ônibus. Ih, morei em vários lugares. Fui morar no Lins... Depois me chamaram para morar nos fundos da faculdade do Catete. Me perguntaram se eu queria morar lá nos fundos da faculdade, porque eles queriam mais segurança. Aí eu fui lá.

Era uma casa nos fundos. Depois que eu comprei o apartamento, não quis mais ficar. Morei uns 3 anos lá. Aí foi morar um contínuo que tinha aqui, com a mulher. Fizeram coisas, aumentaram a casa. Só vendo. Nunca mais fui lá...

Tem vários assuntos relacionados à faculdade... Uma vez, eu vou chegando na faculdade, tá fechada a faculdade. "O que é que houve?" "Disseram que vão jogar uma bomba ai... Que tem uma bomba..." E os funcionários todos escondidos dentro da secretaria, do gabinete e me chamaram para procurar a bomba... não tinha nada. Foi uma aluna que inventou isso, com um telefonema, porque ela tinha que fazer uma prova. E não houve prova nenhuma. Depois apareceu que foi ela quem telefonou... Mas tem muita coisa... Por exemplo, a UNE. Eu tento me lembrar o nome do presidente do CALC, porque ele estava lá no Flamengo, na praia, a UNE era por ali, e a polícia veio em cima. Ele veio correndo, e na hora em que ele ia saindo da faculdade, colocou a mão no portão... E os policiais batendo, metendo o cacete: pá-pá-pá.. Ele não agüentou e saiu correndo para dentro, para os fundos... jogaram uma bomba. A bomba não explodiu.

O Getúlio... Eu vi a notícia no jornal, de que ele se suicidou. A meu ver, ele não se suicidou. Foi o irmão dele que... Porque ele era polícia, chefe e bebia muito. E falava com o Getúlio. Quando o Getúlio mandou ele sair fora... Ele assinava igualzinho ao Getúlio. Tudinho. E depois que ele saiu, apareceu o Getúlio morto. Ele que matou! Tenho certeza absoluta e agora estão dizendo que ele se suicidou.

No Catete havia trote. O trote era violento. Bauer Novelli, o diretor, eu e ele, acabamos com o trote violento. Eles vinham com a tesoura... para cortar o cabelo das mulheres. Então eu e ele resolvemos acabar. Ele me disse: "Magalhães...vamos lá...". E o trote acabou por completo. E aqui também esta melhorando também. Aqui é mais de pintar a cara, para pegar dinheiro aí fora. Bobagem isso.

Para mim o melhor diretor da faculdade foi Flávio Bauer Novelli. Porque, naquela época, o diretor era escolhido pelo Conselho. Iam 3 nomes... Agora não. Agora vota funcionário, vota aluno. Não dá.

Se eu for falar muito eu vou ter que marretar muita gente...Titular hoje não quer dar mais aulas. Não pode existir isso. A meu ver, eles querem dar aulas no Mestrado. Se ele é o titular, tem que dar aulas para a turma. Outra coisa: dar uma prova e valer duas. Não existe isso. Uma prova valer duas! Eletiva, por exemplo, tem professor que segue certinho. Agora, tem outros que não: uma prova valendo duas...

Eu, como sou funcionário antigo, sempre levei isso a sério e sempre me doei pela faculdade. Eu não entro de férias. Vendo dez dias. E fico trabalhando.

Eu nunca faltei um dia. Nem para ser operado . A próstata, só fui lá e acabou. E vim embora. A faculdade de direito é uma segunda casa. Me paga... Na Leopoldina eu também dava duro na casa. Conforme eu brinco hoje, já brinquei muito lá. De dar sustos, bichinhos... Dei susto em muita gente. Estalinhos: tá-tá! Todo mundo me pede para brincar... Até os alunos me pedem...

Em 1952, era mais gente idosa, né? Os alunos... Hoje é uma meninada. Gente que vem com qualquer roupa.

Vim do Catete desenvolvendo as mesmas atividades. Naquela época não tinha computador. Era máquina de escrever. As certidões eram todas feitas à máquina: nada consta, "estar matriculado em tal ano...", o histórico escolar. Tudo era feito aqui. Vários funcionários. E quando vieram os 2 computadores, grandes, eu comecei a trabalhar naquilo ali. Mas quando eu vi que ia ser tudo nas minhas costas, eu parei por completo.

Eu programei uma festa de fim de ano, fui lá e contratei um almoço. Mas fiquei preso, eu e um funcionário ficamos presos com um exame oral de uma professora e eles foram na frente. Você sabe que a gente contrata tanto de bebida e tanto de comida, né? Por um preço X. Como eles foram antes, começaram a beber. E teve um aluno, um funcionário, era... amigo oculto. E ele comprou uma escova de dentes para dar como presente. Quando eu cheguei: "Oh Magalhães, sabe que fulano comprou uma escova de dentes para dar para fulano". "Não. Que isso?! Mas presente de amigo oculto?! Não dá".

No Catete se comia no restaurante ali perto. Teve uma vez, que era fim de ano, a turma vai para o bar, fazer uma bebidinha... Mas naquela época já existia um toxicozinho, umas bolinhas. E tinha um aluno que botou no guaraná de uma menina, que era até professora fora. A menina foi parar no Doutor Eiras! O pai veio procurar o cara para fuzilar... Mas o cara já tinha saído, depois ela melhorou, voltou. Agora está pior! É baile mesmo! Funk, essas coisas...

Eu sempre falo para os alunos que essa carreira é uma carreira mentirosa. Porque a classe é mentirosa. Tem que mentir para ganhar. Se eu fosse formado, seria promotor. Eu sei que a pessoa não matou e vou dizer que matou. Vou forçar. Para saber se meu adversário é melhor que eu. Tem que ser melhor que eu. Eu sempre falo para os alunos sobre isso. Tem que mentir para ganhar! Se for fraco... Graças a Deus, nunca precisei de advogado na vida!

Querem fazer homenagem para mim e eu não vou nunca! Antigamente eu ia à recepção, fora daqui... Uma vez eu fui até com a minha senhora, cheguei até atrasado. E tinha uma dona, uma loira dançando, ai veio para me tirar para dançar. E a patroa ficou brava! E aí a patroa: "Vamos embora! Vamos embora!" Eu ia nas formaturas, mas agora eu não vou!

Colar... Olha! Antigamente era difícil! Muito difícil! Eu peguei uma aluna, aliás nem fui lá porque tinha o fiscal que era funcionário e ela botou uma cola na perna... e outra na caixa de fósforo. Ele viu, falei com ele, ele foi lá, chamou a menina. Era filha do chefe dele fora daqui! E quando ia ao banheiro, apagava tudo.

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